Era Uma Vez

Era uma vez na Grafipar

Se houve um ano marcante em minha vida, foi o de 1982. Um ano memorável. Faz exatamente 30 anos. Eu tinha 27 e minha filha Carolina acabara de nascer. Eu respirava histórias em quadrinhos e criava páginas e páginas para a Grafipar. Estava morando fazia poucos meses em Curitiba na “Vila dos Desenhistas”, juntamente com Watson Portela, Gustavo Machado, Itamar Gonçalves e Fernando Bonini, um vizinho do outro. Muro com muro, no bairro periférico que ficava além do Clube de Campo Três Marias, onde Claudio Seto, nosso mentor e tutor, nos levou para residir. Os muros que dividiam nossas casas eram o tempo todo escalados. Dia e noite a gente pulava pra conversar, jogar baralho, fazer uma roda de música, mostrar uma página recém-desenhada. Um gibi novo. Um disco descoberto. Empinar pipa. Pedir algo emprestado. Enfim, vivíamos em comunidade. Íamos juntos ao clube nos finais de semana, à piscina pública, e fazíamos piquenique no Parque Barigui, com esposas, filhos, parentes e namoradas. Uma vida de festividades e muitas horas na prancheta. Aprendemos muito um com o outro. Tanto no lado profissional quanto pessoal. Fizemos muitos trabalhos em conjunto. Assim como brincamos e festejamos muito conjuntamente. E as histórias são muitas e inesquecíveis. Como o passeio de bicicleta pela periferia da cidade, onde me desgarrei do grupo e cruzei, ladeira abaixo, com uma tropa de burros que estava sendo tocada por um cão vigia. E despenquei em um milharal, caindo de uma rampa de mais de 5 metros de altura. Saí ileso. E mais tarde, no mesmo dia, o Watson rolou com bicicleta e tudo, devido aos cascalhos de uma pequena trilha no topo do Parque Barigui. Enquanto ele rolava, em slow motion, o Itamar no topo da trilha falava calmamente: “be-ver-ly-hillsssssssssssssss”: Assinatura de uma campanha publicitária chiclete da época.

Nenhum de nós vai esquecer da noite em que Gustavo e Bonini chegaram de madrugada, embiritados. E encontraram a gata do Gustavo morta, dentro do quintal. Choraram muito ao enterrar o animalzinho. No dia seguinte, eles se assustaram com a gata, viva, miando e arranhando a porta, querendo entrar em casa. Haviam enterrado um outro gato qualquer. Meses depois, a gata certa morreu. Eles nem se incomodaram. Mas trataram de enterrar junto do outro felino. Eu e Watson, num fim de tarde, ainda na luz do crepúsculo, ouvimos ruídos na casa do Gustavo. Estávamos no quintal de Watson. Acreditamos que era ladrão. Pois víamos vultos dentro da casa, passando pela janela. Gustavo estava viajando, visitando seus pais no Rio de Janeiro. Watson tratou de pegar sua garrucha de estimação e eu me armei com lâmpadas e pedras. Começamos a gritar tipo cowboys em um curral de filme de faroeste. “Eu vou atirar. Vá pra esquerda que eu cubro aqui a direita. Qualquer movimento aí eu meto chumbo.” E pá, dá-lhe tiro de espoleta e pedrada na janela. E manda lâmpada no telhado. Daí aparece o Gustavo na porta da cozinha. Só de cueca. Tinha voltado do Rio e estava querendo dormir.

Num belo dia de primavera, o Itamar apareceu com uma motocicleta novinha. Acabara de comprar. E ficou a tarde toda rodando com a máquina. Foi para vários lugares e no final do dia ainda resolveu ficar zanzando pelo bairro. Ficamos eu, Watson, Gustavo e Bonini papeando no portão de casa enquanto o Itamar zunia de um lado para o outro com a moto. Já na penumbra do anoitecer, de repente vimos lá ao longe a motocicleta cruzar a rua sem seu piloto. Corremos todos para lá. Encontramos então o Itamar, esbaforido. Todo enroscado em cordão de náilon. Reclamando de dor no pescoço. A falta de luz do anoitecer impediu que ele enxergasse um varal de roupa vazio. Bateu com o pescoço no cordão e caiu da moto. Mas a maior das lembranças foi uma festa de final de ano na casa do Seto, que ficava no São Braz, distante meia hora de caminhada de nossa vila. Nela, nos divertimos com as piadas de caipira narradas por Wilson Carlo Magno, roteirista da Grafipar e parceiro de Seto em empreitadas anteriores. Assim como pagávamos com muitas gargalhadas as narrativas da vida pregressa de Bonini, descrevendo suas desventuras na Baixada Fluminense, onde morou muitos anos. E, ainda, caíamos em todas as pegadinhas armadas por Seto Sam, que rindo seu riso feliz de sensei nos aplicava lições filosóficas a cada marotagem.

Franco de Rosa
Quadrinista da Grafipar e atual editor da Kalaco.

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