A Guerra do Sexo

Grafipar na Guerra do sexo

Não é difícil argumentar que o sexo esteve presente em todos os momentos críticos da ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985. Nas marchas que conspiraram contra o presidente João Goulart, o combate à licenciosidade, como chamavam a pornografia, foi marcante. O Ato Institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso Nacional e acabou com o livre-arbítrio, teve como estopim uma greve sexual proposta pelo deputado Marcio Moreira Alves às mulheres dos militares, porque estes espancavam estudantes nas ruas. A entrevista que a atriz Leila Diniz deu ao jornal O Pasquim, no final de 1969, motivou o decreto 1.077, de janeiro de 1970, que declarou a guerra da censura ao sexo em livros, jornais e revistas. E foi o fim da censura ao nu frontal que marcou a queda da última barreira às liberdades durante o regime militar.

Quando a Grafipar começou a produzir revistas eróticas, em setembro de 1976, com o lançamento de Peteca, os generais começavam a ficar encurralados pela pressão dos movimentos civis organizados para que o país voltasse à democracia. Era a luta pela “abertura” política. O sexo na imprensa, nesse sentido, tornou-se uma arma poderosa. Por mais que a censura freasse filmes e impressos por causa da nudez ou mesmo pela simples informação sexual, bravos editores encontravam formas de burlar as restrições e foram vencendo resistências. Nessa linha de frente estavam os títulos da editora paranaense, que teve o mérito de reunir, num lugar sem tradição em gibis, duas das melhores gerações de artistas que o Brasil já conheceu, numa das poucas experiências em que realmente se pôde viver dessa arte no país.

Não deixa de ser tragicômico, entretanto, que essa mesma liberdade pleiteada pela Grafipar seria também a sua sentença de morte. Problemas administrativos à parte, o erotismo moderado e de bom gosto que seus bravos jornalistas e artistas defendiam foi engolido pela pornografia meramente exploradora de um mercado que entrou em explosão de vendas entre 1980 e 1984. De repente, seus gibis se tornaram pouco competitivos, desinteressantes diante de fotos e fotonovelas quase ginecológicas que chegavam de todos os cantos do mundo. Mas ficou a história. A história da Grafipar. E a Grafipar na história da imprensa e das lutas pela liberdade de expressão.

Gonçalo Junior
Jornalista e autor de Maria Erótica e o clamor do sexo.

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