A Editora

Uma editora fora do eixo

Em meados da década de 1970 surgiu em Curitiba a editora Grafipar, disposta a aproveitar a abertura da censura e o interesse pelo sexo por parte dos brasileiros. Um de seus maiores sucessos foi a revistinha Peteca, chamada de Playboy dos pobres. Outra publicação de sucesso da editora foi a Personal, onde surgiram as primeiras histórias em quadrinhos, inicialmente material estrangeiro adaptado.

Mas o público queria mais quadrinhos e logo começou a produção nacional. O sucesso constante das HQs nacionais fez com que os editores Luiz Rettamozo e Rogério Dias procurassem artistas nacionais com mais experiência. Foi quando se descobriu que Claudio Seto, uma das figuras mais importantes da revolucionária editora Edrel, estava morando em Curitiba. Seto logo deixou de ser um simples colaborador para se tornar a figura central do núcleo de quadrinhos da editora. Sob sua batuta, ela começou a lançar mais e mais gibis nacionais. Para evitar que a Grafipar fosse invadida por quadrinhos estrangeiros, ele usava uma estratégia marota: sempre que um material estrangeiro era apresentado ao dono da editora, Faruk El-Khatib, Seto pedia à equipe que produzisse algo semelhante. Assim, a editora começou a publicar faroeste, aventura, terror, super-heróis, histórias policiais, ficção científica, sempre com toques de erotismo. A Grafipar inundou as bancas brasileiras com as mais variadas revistas, revelando grandes artistas, como Mozart Couto, ou resgatando mestres que haviam se afastado da nona arte, como Flávio Colin e Julio Shimamoto.

Com um discurso nacionalista, o núcleo de quadrinhos realizava reuniões com artistas de outros estados, traçando estratégias para conseguir mais e mais leitores. O sucesso da editora e as reuniões fizeram com que muitos grandes artistas migrassem para Curitiba, no que ficou conhecido como a Vila dos Quadrinistas. Franco de Rosa, Gustavo Machado, Fernando Bonini, Itamar Gonçalves e Watson Portela moravam lado a lado em uma quadra do bairro Três Marias.

No início dos anos 1980, a crise econômica e problemas editoriais levaram a Grafipar a entrar em crise. A compra de quadrinhos foi diminuindo cada vez mais e os artistas foram embora. As últimas revistas apelavam para o sexo explícito e não tinham mais a sofisticação do auge da editora. A Grafipar acabou, mas influenciou toda uma geração de quadrinistas e editoras.

Gian Danton
Jornalista, roteirista e autor de Grafipar: a editora que saiu do eixo.

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